Eleições italianas 2018, o voto na Argentina sob investigação por suposta fraude

montecitorioOs Parlamentares Adriano Cario e Eugenio Sangregorio teriam sito eleitos à Câmara e ao Senado graças a votos falsificados. A Junta para as eleições decidirá sobre Cario. Nesse meio tempo a Procuradoria de Roma investiga

8 de setembro de 2021

Dois parlamentares eleitos em 2018 pelos italianos residentes na área do Consulado de Buenos Aires, na Argentina, são investigados pela procuradoria de Roma por suposta fraude eleitoral: teriam na realidade conseguido o posto graças a cerca de 10 mil cédulas eleitorais falsificadas. Os votos, teriam “sido preenchidos com a mesma caligrafia e provavelmente com a mesma caneta”. Um alarme sobre as fraudes nas seções eleitorais da Argentina já havia sido dado em 2012, quando a Procuradoria de Roma investigava um caso parecido em relação às eleições de 2008. Hoje, os investigados são o Deputado Eugenio Sangregorio e o Senador Adriano Cario, ambos residentes na Argentina. Foram ambos candidatos pela União Sul Americana dos Emigrados Italianos (USEI), partido que pertence ao grupo misto e que tem posicionamentos próximos aos de centro esquerda. Ambos, Cario via email e Sangregório, através do Secretário da USEI, o advogado Vincenzo Carrozzino, foram contatados e não se manifestaram.

A Junta para as Eleições e  Imunidade Parlamentar do Senado, o organismo parlamentar que intervém seja quando existem eleições contestadas, seja quando uma Procuradoria da República solicita a prisão de senadores, pode votar em breve para fazer cair o Senador Adriano Cario. Para o deputado Eugenio Sangregorio, ao contrário, não existe nenhum voto no horizonte pela outra Junta para as Eleições, a da Câmara. O procedimento contra os dois parlamentares da USEI foi promovido por dois candidados do Partido Democrático que ficaram fora do Parlamento, Fabio Porta e Alberto Becchi, que denunciaram a suposta fraude.

Caso a Junta do Senado venha a considerar válida a reclamação dos demandantes, Fabio Porta tomaria automaticamente o posto de Cario. É mais complicada a situação na Câmara, pela qual concorria Alberto Becchi. A recontagem, nesse caso, colocaria em discussão a atribuição de todas as quatro postos parlamentares disponíveis pelo voto dos italianos na América do Sul.

Os prazos se prolongaram também por uma série de recursos e contra recursos entre Fabio Porta e a Corte de Apelo de Roma, enquanto que a tramitação sofreu lentidão devido à pandemia da Covid-19.

Houve também contestações semelhantes para a eleição de 2008, mas o procedimento penal está agora em andamento. Esse suposto sistema de falsificação eleitoral, portanto, parece repetir-se através dos anos, colocando continuamente em dúvida o escrutínio dos votos apresentados pelos italianos na Argentina.

Nesse meio tempo, na Província de Cosenza, na cidade onde está a sede da USEI, está em andamento uma outra investigação pela magistratura na qual, ainda que não estejam sendo investigados, são citados alguns homens chave do movimento político.

O fato contestado é um trabalho no hotel da família Sangregorio , contratado e realizado de maneira irregular. A investigação vai mais longe:      hipotiza a existência de um real e verdadeiro sistema para atribuir ilegalmente os trabalhos públicos nos municípios do litoral de consenza.

O voto dos italianos no exterior é mais vulnerável a potenciais fraudes exatamente pelo modo pelo qual ele é expresso. Os cidadãos italianos, na realidade, recebem as cédulas eleitorais por correio e expressam seu voto por correspondência. Os envelopes com o material preenchido devem então ser enviados ao Consulado mais próximo e, de lá, segue para a Itália. Na Argentina, a distribuição dos envelopes com as cédulas, nas eleições de 2018, foi feita pelo Correio Argentino, o serviço postal de propriedade estatal. A sua gestão, porém, está em mãos de empresas privadas: em 1997 o Correio foi dado em concessão a uma empresa da família do ex Presidente da Argentina, Mauricio Macri (no posto até 2019, de origem italiana, o pai era um emigrado de Siderno, Calabria). O Correio Argentino figura entre os inscritos no registro dos investigados pela inquérito de Roma sobre fraudes eleitorais.

O escândalo do Correio Argentino

Como iniciou o caso Cario-Sangregorio

Em 2018, os candidatos perdedores do Partido Democrático, Fabio Porta e Alberto Becchi, apresentaram dois ofícios após a conclusão do turno eleitoral, um no Itália – à Corte de Apelo de Roma, responsável pelas investigações que dizem respeito à circunscrição do exterior – e um na Argentina – ao Tribunal Federal de Mar del Plata. Tanto na Câmara, como no Senado, a eleição foi vencida com uma diferença de cerca de  10 mil cédulas eleitorais e, no complexo, os votos obtidos na capital argentina respondem por 47% do total obtido pela USEI, segundo os cálculos de Porta e Becchi. Desde o início, os escrutinadores do PD e de outro partidos, como o MAIE, haviam encontrado possíveis irregularidades nas cédulas, escrevem os dois candidatos no ofício.

A fraude eleitoral

A Fraude Eleitoral

No Senado, o candidato excluído, Fabio Porta, localizou 32 seções “em risco de fraude”, que apresentaram 22.633 votos à favor da USEI. Em duas dessas, na cidade de Buenos Aires, a USEI obteve 96% dos votos, contra uma média de 23% no resto da capital. Dos cerca de 22 mil votos obtidos pelo Senador Cario em toda a América do Sul, 16.860 votos foram obtidos em 14 das 99 seções que pertencem ao consulado de Buenos Aires, cuja abrangência é muito grande. Concluindo, os votos que mandaram Cario e Sangregorio ao governo foram obtidos principalmente no distrito de Buenos Aires. Adriano Cario, destaca Fabio Porta, não era sequer cabeça de lista da USEI para o Senado na repartição da América do Sul, outro elemento que projetaria sombra sobre seu resultado, segundo o demandante. Discurso semelhante pela situação na Câmara. Na denúncia apresentada por Alberto Becchi na Argentina se informa que em 33 seções eleitorais o Deputado Eugenio Sangregorio obteve 15.861 votos sobre um total de 16.478.  “O candidato pela Câmara dos Deputados da USEI obteve 38 mil votos em toda a América do Sul – sintetiza Alberto Becchi, candidato do PD – Somente em algumas seções de Buenos Aires obteve 24 mil votos. Nas outras 500 seções, 14 mil votos”. 

A perícia caligráfica

No ofício apresentado em Roma, os denunciantes relatam ainda que durante o escrutínio nas seções incriminadas, os escrutinadores do PD perceberam que os votos para os dois candidatos da USEI foram “expressos com idêntica caligrafia e provavelmente com a mesma caneta”. Essa indicação foi depois avaliada pela Procuradoria de Roma, após a abertura da investigação. O candidato Porta encaminhou essa avaliação à Junta das Eleições do Senado já em abril.

De acordo com o que se lê no relatório da última reunião da Junta do Senado, os peritos da procuradoria separaram diversos grupos de cédulas que foram votadas pelas mesmas pessoas, como indicam as grafias: dez mãos votaram várias vezes em uma das seções analisadas e cinco em outra. Dois autores seriam os mesmos. Segundo declaração de Porta à Junta, com a recontagem, se chegaria a mais de 12 mil votos a menos para Cario. Caso isso se confirme, Porta se tornaria Senador e
Cario cairia. Os resultados das perícias da Procuradoria valem também para as seções contestadas pela eleição de Sangregorio.

Segundo acusação dos candidatos perdedores, uma parte das cédulas não teria nunca sido entregue aos eleitores, ficando ao invés, em Córdoba, em uma sede do Correio Argentino

 Como foi possível preencher milhares de cédulas eleitorais nessa maneira? Segundo a acusação dos candidatos perdedores, uma parte dessas cédulas não teriam nunca sido entregues aos eleitores, ficando ao invés, em Cordoba, em um depósito do Correio Argentino. É aqui que os parlamentares temem tenha ocorrido a falsificação dos votos. Uma circunstância que deve ser investigada no local, na Argentina, onde porém a investigação penal que se iniciou em setembro de 2019 foi transferida para o tribunal civil. Porta e Becchi na Argentina estão preparando um novo ofício para se reiniciar uma investigação penal na qual a USEI será acusada de ter participado de uma real e verdadeira associação criminal operativo com, pelo menos nove pessoas, cujo objetivo era “modificar o resultado das eleições”.

Sangregorio, do Belvedere Marítimo ao Bingo na Argentina

“Vim para ajudar a Itália, sou italiano para todos os efeitos. Nasci aqui e parti aos 17 anos e agora voltei”. Em 30 de março de 2018, fora do Parlamento Italiano, o neo eleito Eugenio Sangregorio descreveu dessa forma, a alguns jornalista, a emoção de falar pela primeira vez em Seção. O vídeo de seu primeiro discurso no Montecitorio tornou-se viral: Sangregorio não conseguia falar em italiano. Foi então entrevistado pelo La Zanzara, o famoso programa da Radio24: “Sou um dos que fez fortuna na Argentina, fui como muitos para a América e agora tornei-me um empreendedor da construção civil, estimado por todos – explicou a La Zanzara. Tenho também um avião particular, serve para me levar de uma cidade a outra. E tenho uma empresa com 2.500 funcionários. Estou porém emocionado, tive vontade de chorar ao falar no Parlamento”. Segundo os dados publicados em maio pela Openpolis, porém, está entre os 15 políticos mais ausentes com uma taxa de ausência no Parlamento de 59%.

EUGENIO SANGREGORIO

Eugenio Sangregorio, 82 anos, inicia como leiloeiro em leilões judiciais e se torna, com os anos, um homem de negócios com atividade entre Itália e Argentina. É uma pessoa mais conhecida na Argentina que na Itália. Mais do que pela construção civil, é conhecido pelo Bingo Adrogué, uma sala de jogos que localiza no bairro de mesmo nome na área metropolitana que circunda Buenos Aires. O bingo e, em geral, o jogo de azar são setores em que investiu também na Itália, primeiramente através do Cine-Bingo, depois com outras salas de jogo em Roma.

Possui também diversos hotéis, seja ao longo da costa Argentina, seja em Belvedere Marittimo, sua cidade natal com vista para a costa do Tirreno de Cosenza. Todas as suas empresas argentinas fazem parte do Grupo Sangregorio, constituído em 1967, com atividades que vão desde bares a marinas até um cemitério particular.

Em Belvedere Marítimo está também registrada a sede legal da USEI, na Via Fortunato, 54, junto ao escritório de contabilidade Astorino & Carrozzino.

Ciriaco “Ciro” Astorino juntamente com Vincenzo e Salvatore Carrozzino são sócios e são também os representantes legais da USEI juntamente com Sangregorio. Entre Roma e Calabria são sócios de Sangregorio em diversas atividades. Em Belvedere Maritimo, Vincenzo Carrozino presidiu a Câmara Municipal até o momento em que rompeu com o Prefeito, sem confiança política e, no passado, foi também Assessor de Orçamento.

Belvedere Maritimo está ao centro de uma investigação pela Procuradoria de Paola (Cosenza) que hipotiza a existência de um cartel que manipulava os contratos em diversas cidades do litoral tirreno de Cosenza. Um sistema para gerir de maneira não transparente a atribuição de obras públicas. Carrozino não está entre os investigados nem aparece como diretamente envolvido, entretanto, no decreto de busca, entre as infrações conta o “cartel” se lê também a ocupação de solo não autorizada por uma sala de jantar do hotel Valeria do Mar, administrado por uma empresa da qual são proprietários Vincenzo Carrozzino, Eugenio Sangregorio e sua filha, Valeria.

Ela é a herdeira da família, Vice Cônsul Honorário no Consulado de San Isidro na Argentina, ele também parte do distrito eleitoral onde o partido USEI obteve o maior número de votos. De acordo com a Procuradoria de Paola, o trabalho contestado no hotel  Valeria do Mar teria sido realizado pela empresa de Salvatore Carrozzino, membro da USEI, antes da aprovação da Câmara Municipal, onde o irmão Vincenzo era então presidente da Câmara e expoente da maioria. O crime hipnotizado é falsidade ideológica e quem cometeu foi a responsável do setor técnico.

Cario, a polêmica pela contratação da irmã

Durante a última crise de governo que levou ao fim do executivo de Giuseppe Conte e ao início do executivo liderado por Mario Draghi, Adriano Cario esteve ao centro das polêmicas. Foi atacado seja por jornais de cunho progressistas, seja por jornais conservadores. No Parlamento, o marcaram PD e Fratelli d’Italia. Foi acusado de estar entre os protagonistas do enésima negociação dos parlamentares para salvar um executivo que já estava morto. O novo grupo parlamentar que se constituiu dentre as filas do grupo Misto, para evitar que Conte se afundasse na votação em sessão, e das quais faz parte ainda hoje Cario, se chama “Europeistas MAIE Centro Democrático” . No início de 2021 os seus membros eram definidos na imprensa como “os responsáveis”.

ADRIANO CARIO

Concomitantemente à criação do novo grupo, no Consulado Geral de Buenos Aires, foi contratada a irmã de Cario, Fiorella. Na época,  o Vice Secretário responsável pela política para os italianos no mundo – papel chave da administração dos serviços consulares – era Ricardo Merlo, presidente do MAIE.  O único jornal que defendeu Cario foi ItaliaChiamaItalia, fundado por Ricky Filosa, hoje coordenador do MAIE e, até fevereiro de 2021, porta voz de Ricardo Merlo. O caso se encerrou então com a demissão de Fiorella Cario que, porém, destacou que  o emprego no Consulado era temporário e o pagamento simbólico, 65 euros ao mês segundo relatado por ItaliaChiamaItalia, jornal onde no passado o próprio Sangregorio escreveu. Desde 2017 Cario preside a Associação Centro Calabrese de Buenos Aires, dada sua origem calabresa.

O precedente em 2008

O mesmo mecanismo das cédulas adulteradas já foi sinalizado durante as eleições de 2008, sempre na Argentina.  Naquela ocasião, o mecanismo teria favorecido o ingresso no Palazzo Madama do então Popolo dele Libertà, Esteban Juan Caselli, “Cacho” para os amigos, mas conhecido como “O Monije Nigro” (O Monge Negro) devido a suas relações com o Vaticano.

Dentre os distritos eleitorais envolvidos na suposta fraude estaria sempre San Isidro, Distrito de Buenos Aires. Dessa vez, porém, a trapaça teria acontecido diretamente dentro das instalações da Embaixada da Itália, com 22 mil cédulas preenchidas com a mesma caligrafia. A Procuradoria de Roma abriu um dossiê , do qual porém se perderam os rastros. Na ocasião, Caselli fazia parte do Italianos no Mundo, movimento político cujo secretário, Sergio De Gregorio, negociou 20 meses de prisão por corrupção em documentos oficiais após ter recebido de Silvio Berlusconi 3 milhões de euros para deixar o partido onde estava antes, Italia del Valores, e entrar do PdL.

Interceptado durante um outros dos numerosos procedimentos em que acabou sendo investigado naqueles anos, Silvio Berlusconi definiu Caselli como “perigosíssimo”. Na Argentina, Caselli já havia sido acusado de tráfico de armas juntamente a Carlos Menem, ex presidente que foi condenado em 2013, em cujo governo Caselli foi nomeado Embaixador na Santa Sede.O processo ainda está aberto.

Além de Caselli, teriam conseguido um posto, através do mesmo mecanismo fraudulento, também outros expoentes do movimento Italianos no Mundo, parte do PdL. Dentre esses certamente Nicola Di Girolamo que, em 2015 também negociou uma pena de cinco anos de reclusão por lavagem de dinheiro em nome do clã de Arena. Após a acusação de ter sido eleito na Alemanha com o voto da ‘ndrangheta, demitiu-se do cargo de senador em 2010.

Fonte: IRPI Media

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